REFLEXÃO NUM FIM DE EXPEDIENE RUIDOSO
Todo rio tem pedras.
Toda pedra, sua escarpa.
E quando escarpa, inevitável topada.
Sempre tem dores, a topada .
E toda dor lança, afiado, seu grito.
Todo grito é certo que range.
Deveras, todo rangido incomoda.
E... que nem aquele querido LP arranhado,
incômodo aperta.
Mas todo aperto da alma
é um torniquete... sufoca.
Sufoca tanto, que todo sufoco
uma hora, sangra, açude que transborda.
Mas quando transborda,
da cheia,
surge um rio.
Assim, a vida.
Por isso, te acalma.
A vida:
uns rios tortos, umas pedras bicudas,
uns peixes espada que mordem,
um redemoinho que nos leva um pedaço aqui,
um abismo que nos traça um naco de alma ali...
A vida, fazer o quê?
Ah, mas olha só essas lavadeiras tão lindas,
lavando seus brancos nas beiras,
Olha essas crianças que mergulham
como esperanças em setas,
Percebe essas plantas de seda que beijam a água,
ali uns pássaros, aqui uns plânctons,
o sol que gordo como um sultão,
viceja... na água,
luz líquida... esse rio.
Ora, se é luz,
não reclame das beiradas dos montes
que apenas, como a beirada de cobre da lanterna
não atrapalham sua luz...
Só ajustam o foco da aurora.
É assim que ficamos menos cegos.
Assim nos tornamos mais rios.
Ricos.
Rios.
Rio.
Outra travessia foi feita!
Comemora!!!



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Escrito por Denilson Cardoso de Araújo às 18h35